Domingo, 27 de Março de 2011 as 11:34:06
Gamification: Leia e ganhe um troféu virtual
Neste momento você acaba de ganhar 1000 Orion Points. Porém, a cada segundo que você passa lendo este artigo você perde 5 Orion Points. Seus pontos só serão depositados assim que você terminar de ler todo este texto e fizer um comentário no post, então, quanto mais rápido você ler, mais pontos ganhará.
Eu disse que há um ranking que exibirá o nick dos leitores mais rápidos do site? Pois é, tem.
Caso você tenha acelerado seu ritmo de leitura por causa dos parágrafos acima, você acabou de ser testemunha do poder da Gamificação.
1 - Introdução
1.1 - Definição
Há alguns anos conhecida como funware, gamificação, do inglês gamification, é o termo usado para nomear o ato de inserir mecânicas de jogo em situações cotidianas da nossa vida.

O Gamification utiliza truques psicológicos para despertar desejos, criar motivação e atrair a atenção dos usuários. Todo ser humano deseja sentir-se importante, almeja obter coisas melhores, gosta de se expressar tendo alguém para ouvi-lo e, o mais importante, todos desejam ser recompensados por seu esforço.
Diversão e desafio não passam de um mal necessário quando o objetivo é manter o jogador na frente do vídeo-game, o almejado fator replay só é obtido quando sentimos que estamos sendo recompensados pelo o que estamos fazendo, adicionar mecânicas como ranking ou uma barra de progresso muitas vezes são o suficiente para ativar a área de competição do nosso cérebro e fazer-nos dar um pouco mais de si.
2 – Uso prático
2.1 – O mundo sempre foi “gamificado”
Tribos de guerreiros bárbaros usavam colares com os dentes de cada animal feroz abatido tal qual hoje soldados adornam suas fardas com medalhas de honra para cada vitória alcançada em nome de seu país. Um observador distraído pode pensar que esses exemplos não tem muita conexão com o fato de você usar uma camiseta indicando que seu paladino Tauren alcançou nível 80 no WoW, mas acredite, tem.
Hoje em dia o gamification está no contador de posts do seu fórum favorito, no número de seguidores do seu Twitter, nas milhas aéreas da sua companhia de aviação, no quadro “Funcionário do mês” daquele fastfood que não serve comida e que tampouco é fast... Está até nos Orion Points, caramba!

No momento em que o administrador deixa números como quantidade de seguidores ou quantidade de amigos à mostra para todos, ele passa uma mensagem bem clara de que o jogo começou. O gamification age para incentivar um comportamento desejado. Se o webmaster exibe a quantidade de posts de todos usuários, é por que ele quer que os usuários comentem o máximo possível em seu site, e compitam entre si para ficar no topo.
Empresas podem utilizar o gamification como um programa de lealdade com esteróides ou com o objetivo de fazer com que o usuário divirta-se realizando tarefas que de outra forma poderiam ser consideradas entediantes. Um exemplo disso são empresas que mantém um sistema de ranking encabeçado pelos funcionários mais pontuais e/ou eficientes, tornando o profissionalismo um jogo de egos que pode render recompensas reais, como bonificações ou aumento de salário.
Outro exemplo vem do professor Lee Sheldon, que criou um sistema de níveis para seus alunos na faculdade onde leciona, Sheldon diz que eles ganham XP “completando quests, lutando contra monstros e construindo itens”, o que em outras palavras quer dizer apresentando seminários, resolvendo questões e realizando projetos. Como em qualquer MMORPG, Sheldon permitiu a instauração de um sistema de guildas, onde cada “membro do clã” tem sua função e tem vital importância na resolução de uma quêst conjunta. Não é necessário dizer que o rendimento da turma aumentou drasticamente.
Existem usos ainda mais sutis do gamification, um site de relacionamentos pode exibir uma simples barra de progresso mostrando a porcentagem de informações que você disponibilizou no seu perfil, essa barra agirá no seu inconsciente, fazendo com que você só fique satisfeito ao vê-la preenchida completamente. A cereja do bolo é a mensagem de “Parabéns, você completou seu perfil” que aparecerá no final.

2.2 – O outro lado da moeda (verde)
Boa ou má, a gamificação é uma forma de controle. Ao utilizar truques psicológicos que bonificam o jogador que faz o que é o esperado (sendo que na maioria das vezes ele não tem noção de que está sendo manipulado) uma empresa está influenciando diretamente seu comportamento. Pode parecer totalmente meio exagerado, mas me sinto um Lemming ao perceber o quão simples é para uma corporação brincar com nosso cérebro e dobrar-nos às suas vontades, fazendo-nos acreditar que aquelas vontades vieram de nós mesmos. INCEPTION PURO, AMIGOS.
É aí que precisa do bom senso de ambas as partes.
3 - Conclusão
Até então, a indústria dos vídeo games tinham se esforçado ao máximo para levar um pouquinho da nossa vida para os jogos, seja através dos sensores de movimento, dos nossos perfis da Xbox Live ou PSN. Porém somos testemunhas oculares da maior inversão de valores da indústria, onde os jogos é que resolveram se adequar à nossa vida cotidiana.
Mal posso esperar por um futuro onde ganharei pontos por escovar os dentes, utilizar o transporte público, assistir programas de televisão, realizar exercícios físicos ou ler livros, já imaginou terminar de ler sua revista favorita e, na ultima página, ter um botão “Curtir” que já manda o feedback para o seu facebook através do banco de dados de assinatura da editora?
Como disse o game designer Jesse Schell em sua palestra na DICE 2010, nunca soubemos os livros que nossos avôs leram, porém nossos netos poderão entrar na internet a qualquer hora para saber quais foram os nossos livros preferidos, e quantos pontos de experiência ganhamos por termos lido-o.
Há alguns anos eu já pensava que o caminho mais fácil para resolver o problema da saúde entre os jovens era implementar um sistema de conquistas nas redes sociais, onde você ganharia pontos por “Comer salada no almoço por 5 dias consecutivos”, ou “Fazer meia hora de caminhada todos os dias do mês”... hoje eu vejo que esse meu devaneio não era algo tão longe da realidade, e tinha respaldo na psicologia.

Como profissional da área de games, vejo com bons olhos a “gameficação do mundo”, porém temos que manter um olhar crítico para não sermos manipulados através de truques psicológicos.
Agora que tal você postar um comentário aí em baixo pra ganhar mais 5 Orion Points? ;)

